Barcarena amanheceu diferente na manhã de segunda-feira(24). O céu parecia mais azul. As ruas, os barcos, as conversas nos portos e até o vento que corre pela orla pareciam anunciar aquilo que, por muitos anos, foi sonho, esperança e fé: Após três décadas, o Clube do Remo está de volta à Série A.
Para quem vê de longe, pode parecer apenas futebol. Para nós, não. Para Barcarena, essa história atravessa os furos, os rios, a baia e as estradas. Ela é feita de balsas lotadas, de motores que rugem na madrugada, de capas de chuva improvisadas, de sol na cara no “lado A” e de passos apressados no retorno para casa.
Quantas noites o ‘barcarenense azulino’ não voltou exausto depois de um jogo no Mangueirão ou até mesmo no Baenão? Quantas vezes o resultado amargou – derrota, empate sofrido, aquele “quase” que parecia perseguir o Remo? E ainda assim, ninguém desistiu.
Porque nós, aqui, somos de uma resiliência antiga, forjados no fogo que derrete a alumina. Somos acostumados a sobreviver às tempestades e celebrar as marés boas. E no futebol, não seria diferente.
Há torcedores que representam essa fé inabalável. Um deles por exemplo é Daniel Albuquerque. Diferente da maioria de nós, ele não tem “outro time”, não divide a paixão, não alterna camisas conforme o campeonato. Enquanto muitos torcem pelo Flamengo, pelo Palmeiras, pelo Corinthians, ele segue fiel – exclusivamente remista, mesmo quando as nossas “remisses” entram em campo – convicto como poucos. Para torcedores como Daniel, o acesso não é apenas um título; é uma coroação de décadas de lealdade, espera e esperança.

Mas a festa não foi só azulina. Em Barcarena, houve torcedor do rival Paysandu que se rendeu e torceu pelo acesso do Remo, num gesto de grandeza que revela a alma generosa do povo barcarenense. E houve quem ‘secasse’, desde o início, como sempre há – porque rivalidade também faz parte do jogo.
E, entre tantos sentimentos, existe também um capítulo especial nessas travessias: o dos que, nos momentos mais difíceis, acabaram “virando a casaca”, machucados pelas decepções e seduzidos por outro azul da mesma avenida – Atravessaram a Almirante. Mas o Remo, esse gigante teimoso de Antonio Baena, não cultiva orgulho nem rancor. Ele conhece as curvas da paixão e sabe que todo filho rebelde um dia retorna.
Lembro-me de Paulinho da Viola quando canta:
“Se um dia meu coração for consultado,
para saber se andou errado,
será difícil negar…”
Porque o amor azulino às vezes vacila – mas nunca se acaba. Quem andou perdido pelas esquinas de outras travessas, se um dia desejar voltar, encontrará a porta escancarada. A arquibancada, eterna e paciente, sempre espera seus filhos de volta.
Afinal, escreveu Paulinho da Viola,
“foi um rio que passou em minha vida
e meu coração se deixou levar.”
E o Remo é isso: um rio profundo que atravessa cada remista, mesmo aqueles que tentaram, por um tempo, navegar em outros ‘rios azuis’.
Heroico: subimos da Série C para a Série B, e agora, da B para a gloriosa Série A – contra estatísticas, contra desconfianças, contra preconceitos escancarados, contra xenofobia e contra a memória recente de alguns anos sem divisão.
E quando a bola rolou no jogo decisivo, Barcarena inteira tremeu. Os bares, os clubes e os restaurantes – acostumados a receber centenas de torcedores – ficaram pequenos para tanta emoção. Gente nas calçadas, bandeiras nas janelas, buzinaço, fogos, abraços entre desconhecidos. Uma cidade inteira pulsando no mesmo ritmo.

O grande responsável por esse retorno histórico? A torcida. A “Fenômeno Azul” – essa força impressionante, capaz de reerguer o clube quando ele estava no fundo, quando ficou sem divisão, sem estádio, sem energia elétrica, quando parecia não haver caminho de volta. Foi ela que empurrou, levantou, acreditou, insistiu. Foi ela que manteve o Remo de pé.
Mas eu não poderia deixar também de agradecer ao, até então, rival Cuiabá. Sim, aquele mesmo do 5 x 1 em 2015. Agora a mágoa, até do mais fanático azulino passou. Somos torcidas irmãs. Que ‘forra’ hein Cuiabá?! Até comprei uma camisa deles, como uma forma de dizer “muito obrigado”.
Hoje, o país olha para o Norte e enxerga, mais uma vez, o gigante do Baenão. E nós, barcarenenses, que tantas vezes enfrentamos chuva, sol e madrugada para dizer “eu estava lá”, sentimos que também fizemos parte dessa história.
Porque o acesso do Remo não é só do Remo. É da Amazônia. É do Pará. É de Barcarena.
























Respostas de 6
Parabéns Jairo Castro e a nação Azulina que esse ano de 2025 deu uma verdadeira aula não só de futebol mas de um boa administração e visão de futebol.
Obrigado pelo seu reconhecimento sincero amigo Tharles. Você como torcedor do Paysandu está devidamente representado no artigo. Parabéns pela maturidade. Forças ao Paysandu para 2026!
Parabéns, Jairo! Seus textos são sempre criativos e muito bem elaborados.
Obrigado.
Ótimo texto para refletirmos em um tão bom momento, mas não esquecermos do nosso slogan atual “o Remo é pra quem acredita”. E isso sempre foi a base do nosso Fenômeno Azul. Parabéns!
Perfeito Marcelo!