Movido por uma paixão de infância pela Amazônia, o francês Damien Binois transformou a curiosidade sobre a maior floresta tropical do mundo em um negócio internacional. Treze anos depois da primeira visita ao Pará, o fundador da foodtech Nossa!, especializada em produtos de açaí para o mercado europeu, decidiu dar um passo mais ambicioso para a empresa: construir a primeira fábrica própria no Brasil, no município de Barcarena, na Região Metropolitana de Belém.
Com investimento de R$ 15 milhões, financiados pelo Fundo de Biodiversidade da Amazônia (ABF), o projeto marca uma nova fase da startup, que já atua em uma fábrica parceira em Marituba, mas quer transformar Barcarena na base operacional de sua expansão global. A planta, localizada na PA-151, será dedicada à produção de polpa e derivados congelados voltados à exportação.

A previsão é iniciar a operação industrial em setembro de 2026, a tempo da próxima grande safra do fruto. Inicialmente, a fábrica deve gerar 40 empregos diretos, com meta de alcançar 200 postos de trabalho até 2030.
Da tese sobre a cadeia do açaí ao empreendedorismo sustentável
Damien desembarcou no Brasil em 2012 para concluir o mestrado em Administração. A escolha do tema da dissertação, os gargalos da cadeia produtiva do açaí, o trouxe a Belém pela primeira vez.
“Eu sempre fui fascinado pela Amazônia e pela cozinha. Quando eu ouvi falar do açaí, que eu descobri numa praia lá na região do estado de São Paulo, achei que era um assunto perfeito de pesquisa, já que era um alimento da Amazônia, então me dava uma maneira de conectar as minhas paixões pela comida e pelas florestas”.
A pesquisa o aproximou de universidades, cooperativas e instituições da região. Foi também nesse período que ele percebeu um potencial pouco explorado no mercado europeu, onde o açaí praticamente não era conhecido.
“Vim para Belém para fazer a minha tese de mestrado sobre os obstáculos na cadeia produtiva do açaí. Fiz contatos na UFPA, na EMBRAPA, na UFRA e com várias cooperativas. Me apaixonei pela região, entendi o potencial de preservação do meio ambiente da produção de açaí e da oportunidade de agregação de valor para as populações locais”, relembra.
Com a criação da Nossa!, Damien decidiu que o modelo só faria sentido se estivesse alinhado ao comércio justo e ao apoio direto às comunidades extrativistas. A empresa trabalha exclusivamente com produção familiar e áreas de manejo, rejeitando monoculturas.

Atualmente, a Nossa! apoia diretamente 50 famílias de produtores — número que deve chegar a 600 até 2030, segundo o fundador.
Por que Barcarena? Porto, logística e expansão comunitária
A escolha do município não foi a primeira opção. A empresa tentou por três anos instalar a unidade no Marajó, em Curralinho. Mas desafios logísticos inviabilizaram a empreitada.
Barcarena entrou rapidamente no radar pela combinação de fatores:
- Proximidade com o Porto de Vila do Conde, por onde a empresa já exporta seus produtos;
- Logística mais estável e infraestrutura consolidada;
- Localização estratégica em relação aos principais polos produtores do açaí — Cametá, Abaetetuba e Igarapé-Miri;
- Potencial para incorporar produtores barcarenenses à rede da empresa.
“Espero, aos poucos, montar uma relação com produtores do município de Barcarena. Na primeira reunião com os vizinhos da futura fábrica, vários moradores já manifestaram interesse em vender açaí para nós. O único critério é a sustentabilidade”, destaca Damien.
Licenciamento acelerado e pressa para iniciar as obras
A fábrica aguarda a licença de instalação, atualmente sob análise da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMADE). A empresa já possui licença prévia e todas as plantas de engenharia prontas. A expectativa é iniciar a terraplanagem ainda em dezembro, antes do período de chuvas intensas na região. A meta é inaugurar oficialmente a unidade em agosto e iniciar as operações em meados de setembro de 2026.
“Estamos com um contato bem próximo com a SEMADE para tentar liberar a licença de instalação para que a gente possa fechar a terraplenagem antes da chegada do inverno forte. Porque é muito importante para nós já poder operar na safra do ano que vem. O objetivo é começar as operações de produção no meio de setembro de 2026”.
O que será produzido em Barcarena
A operação será integralmente dedicada ao processamento e congelamento de polpas e produtos derivados. Entre eles: Polpa tradicional, média e grossa; Mixes para exportação; Sorvetes e preparados para o mercado internacional e nacional.
Embora a Europa permaneça como principal destino, onde a empresa atua há 13 anos, a fábrica permitirá ampliar presença na América do Norte, Ásia, Oriente Médio e também no Brasil.
Bioeconomia e COP30
A Nossa! atua ao lado de Emater, Embrapa, cooperativas e ONGs como a World Wide Fund for Nature (WWF) em ações de fortalecimento ambiental e comunitário. A COP30, realizada recentemente em Belém, ampliou a visibilidade da marca e abriu portas para novas parcerias.

Atualmente, a empresa já apoia de maneira direta 50 famílias de produtores e o objetivo é que daqui a 2030 a gente impacte diretamente 600 famílias. Damien destaca que as ações vão além da compra do produto, envolvendo apoio às cooperativas por meio de financiamento e capacitações.
“Passamos duas semanas na COP30 explicando ao mundo como a bioeconomia pode gerar renda e preservar a floresta. Para muita gente de fora, isso ainda é um conceito novo. Nós fizemos mesas redondas com instituições privadas, públicas e do terceiro setor, tanto no Brasil como no exterior, para explicar para o mundo a importância de tomar em conta o fato que a Amazônia é uma região com uma população importante, carente e que a bioeconomia é uma maneira de preservar o meio ambiente trazendo uma mega qualidade de vida para essa população”, conclui.






































