Há 191 anos, na manhã de 7 de janeiro de 1835, o assassinato de Bernardo Lobo de Souza, então presidente da Província do Grão-Pará, marcou o início da Cabanagem, a mais radical revolta popular da história do Brasil. O crime, cometido pelo tapuio Domingos Onça, em Belém, foi o estopim de um levante que se espalharia por toda a Amazônia paraense e deixaria marcas profundas em territórios que, à época, sequer existiam como cidades, entre eles, a região onde hoje está Barcarena.
A Cabanagem não surgiu de um ato isolado, mas de um longo processo de exclusão social, miséria extrema e abandono político que marcou o período pós-Independência do Brasil. A população pobre da província, formada majoritariamente por indígenas, ribeirinhos, negros escravizados e libertos, vivia à margem das decisões políticas e econômicas, em cabanas às margens de rios e igarapés. Foram esses grupos, historicamente invisibilizados, que protagonizaram uma insurreição sem precedentes no país.
Embora tenha eclodido na capital, a revolta rapidamente avançou pelo interior da província. Os rios, principais vias de circulação da época, funcionaram como corredores do conflito. Vilas, freguesias e áreas rurais tornaram-se cenário de perseguições, embates e refúgio de líderes cabanos. A região que hoje corresponde a Barcarena, então território estratégico pela proximidade com Belém e pela conexão fluvial com o interior da Amazônia, foi diretamente impactada pelo avanço do movimento.
Antes de se tornar município, Barcarena foi território indígena, área de missões religiosas, freguesia e distrito subordinado à capital paraense. Essa condição fez da região um espaço recorrente de circulação de pessoas, ideias e conflitos ao longo do século XIX. Durante a Cabanagem, o território serviu tanto como rota de deslocamento quanto como abrigo para participantes da revolta, além de palco de episódios decisivos para o desenrolar do conflito.
Um dos acontecimentos mais simbólicos ligados à Cabanagem ocorreu justamente na região de Barcarena. Em 31 de dezembro de 1834, poucos dias antes do início oficial da revolta, morreu o cônego Batista Campos, uma das figuras mais influentes do movimento popular no Grão-Pará. Perseguido pelo governo provincial, ele buscou refúgio na Fazenda Boa Vista, no furo do Arrozal , área então conhecida como Atiteua, onde acabou falecendo, debilitado e sem acesso a cuidados médicos.
Batista Campos foi ungido pelo vigário de Barcarena, Francisco da Silva Cravo, e sepultado nos arredores da Igreja de São Francisco Xavier, conforme os costumes da época. Sua morte teve forte repercussão entre as camadas populares e é apontada por historiadores como um dos fatores que intensificaram a revolta. Sete dias depois, em Belém, Lobo de Souza foi morto, em um episódio interpretado como resposta direta às perseguições que culminaram na morte do religioso.
Outro personagem central da Cabanagem com trajetória ligada a Barcarena foi Eduardo Angelim. Cearense de nascimento, Eduardo Francisco Nogueira ganhou o apelido em referência à resistência da madeira amazônica. Tornou-se o terceiro e último presidente cabano e o principal símbolo da radicalização do movimento. Após a retomada do poder pelas forças imperiais, foi capturado em 1836, enviado ao Rio de Janeiro e posteriormente deportado para Fernando de Noronha.
Angelim só retornou ao Pará em 1851. De volta, fixou residência na Fazenda de Deus, em Barcarena, onde viveu até a morte, longe do poder e sem reconhecimento público. Com o passar do tempo, no entanto, sua figura foi resgatada pela historiografia como símbolo da resistência popular amazônica.
A repressão à Cabanagem foi violenta. Estima-se que entre 30 mil e 40 mil pessoas tenham morrido durante o conflito, número que pode representar mais de 40% da população da província à época. A derrota militar não apagou, contudo, a dimensão histórica do movimento, que permanece como uma das mais profundas expressões de revolta social do Brasil imperial.
Em Barcarena, essa memória não está restrita aos livros. Ela se manifesta no espaço urbano, como nomes de ruas e escolas. A Avenida Félix Clemente Malcher, a Avenida Francisco Vinagre e a Avenida Eduardo Angelim homenageiam lideranças centrais da Cabanagem. Malcher foi o primeiro presidente cabano; Francisco Pedro Vinagre, o segundo; Angelim, o terceiro e último. Os nomes, incorporados ao cotidiano da cidade, transformam ruas e avenidas em marcos históricos silenciosos de uma revolta frequentemente esquecida fora da Amazônia.

Passados 191 anos do início da Cabanagem, Barcarena carrega em sua paisagem urbana e em sua história territorial as marcas de um conflito que antecede sua existência administrativa. Mais do que um episódio do passado, a revolta permanece como elemento estruturante da memória, inscrita no chão e na formação histórica da cidade.


































Uma resposta
Excelente matéria. Parabéns.
Barcarena precisa conhecer e dar valor a sua história e ao que tem em seu território.
Passou o tempo de termos aqui um memorial, um monumento, um centro cultural, um museu …
“Um povo que não conhece a própria história está fadado a repeti-la”
(Edmund Burke)