Um projeto tecnológico em implantação dentro da refinaria Hydro Alunorte, em Barcarena, promete mudar a forma como um dos principais resíduos da indústria do alumínio é tratado no Brasil. A iniciativa, liderada pela Wave Aluminium, aposta em uma tecnologia baseada em micro-ondas para recuperar minerais presentes no resíduo de bauxita e transformá-los em matérias-primas industriais.
A unidade, considerada uma planta semi-industrial, está sendo instalada dentro da refinaria de alumina e terá capacidade inicial para processar cerca de 50 mil toneladas de resíduo de bauxita por ano. A previsão atual é que a operação comece no último trimestre de 2026.
Segundo Gustavo Emina, CEO da Wave Aluminium, o projeto representa uma etapa estratégica para validar em escala ampliada a tecnologia desenvolvida pela empresa.

“A planta de Barcarena está em fase de implantação e representa uma etapa fundamental do processo de validação da nossa tecnologia para o reaproveitamento de resíduos de bauxita. Trata-se de uma unidade semi-industrial que permitirá testar, em escala ampliada, os parâmetros técnicos do processo antes de sua futura aplicação em escala industrial”, afirma o executivo ao Portal Barcarena.
A iniciativa integra uma estratégia de inovação voltada à chamada economia circular no setor mineral, ao permitir que um resíduo gerado na produção de alumina seja convertido em novos produtos industriais. O projeto também apoia a meta da Hydro de atingir 10% de utilização da geração de resíduos de bauxita até 2030 e eliminar a necessidade de novo armazenamento permanente de resíduos de bauxita até 2050.
Micro-ondas para separar minerais
O processo desenvolvido pela empresa utiliza um método chamado Microwave Energy Transfer (MET). A tecnologia aplica micro-ondas para aquecer seletivamente os diferentes componentes presentes no resíduo de bauxita.

Na prática, isso permite segregar e concentrar minerais específicos, facilitando sua posterior recuperação e transformação em matérias-primas industriais.
De acordo com Emina, o método foi desenvolvido ao longo de anos de pesquisa e testes em escala piloto realizados no centro tecnológico da empresa no Rio de Janeiro.
“Esse processo apresenta alta seletividade e permite recuperar minerais estratégicos presentes no resíduo. Além disso, a tecnologia contribui para reduzir o consumo de água e energia e diminuir a geração de rejeitos”, explica.
Ferro de baixo carbono e insumos para cimento
Entre os produtos que poderão ser obtidos a partir do processamento do resíduo está o ferro metálico de baixo carbono, que poderá ser utilizado pela indústria siderúrgica.
Esse tipo de material tem potencial para contribuir com processos de produção de aço com menor pegada ambiental.
Além do produto principal, o processo também gera coprodutos minerais que podem ser destinados a outros setores industriais.
Materiais ricos em sílica e silicatos, por exemplo, têm potencial de aplicação em áreas como indústria do cimento, produção de materiais de construção e outras cadeias industriais que utilizam insumos minerais
Dependendo da composição do resíduo processado, também podem ser recuperados diferentes óxidos e minerais presentes na bauxita.
A proposta da tecnologia é justamente transformar um passivo ambiental histórico da mineração em uma nova fonte de matérias-primas para a indústria.
Etapa de demonstração tecnológica
A planta de Barcarena foi concebida como uma unidade demonstrativa, que permitirá reunir dados técnicos e operacionais antes da eventual expansão da tecnologia para projetos de maior escala.
Esse modelo é comum em projetos industriais inovadores, em que uma etapa pré-industrial é utilizada para validar processos, eficiência energética e desempenho econômico.
Se confirmada a viabilidade em escala ampliada, a tecnologia poderá ser aplicada em projetos industriais maiores voltados ao reaproveitamento de resíduos da cadeia do alumínio.

Para uma região que abriga um dos maiores complexos industriais do setor no país, a iniciativa pode representar um novo passo na tentativa de conciliar produção mineral, inovação tecnológica e redução de impactos ambientais.
Empregos e impacto regional
Durante a fase de implantação da unidade em Barcarena, a expectativa é de geração de centenas de empregos diretos e indiretos, especialmente em atividades ligadas à construção, montagem industrial e serviços especializados.
Após o início da operação, a planta deverá manter um quadro permanente de profissionais, além de gerar oportunidades indiretas em setores como manutenção industrial, logística e prestação de serviços.
Segundo o CEO da Wave Aluminium, projetos industriais desse tipo costumam priorizar a contratação de trabalhadores da região.
“Há uma prioridade natural para a contratação e o desenvolvimento de mão de obra local, contribuindo para a geração de renda e para dinamizar a economia de Barcarena e do estado do Pará” afirma Emina.




































