O que começou como um momento de descontração após os mutirões comunitários no Quilombo Gibrié do São Lourenço, em Barcarena, transformou-se em um dos mais autênticos símbolos da cultura popular. Formado majoritariamente por mulheres quilombolas, o grupo de carimbó Arirambas e Botos nasceu em 2021 e, desde então, tem levado para diferentes públicos a força das tradições, dos saberes e da identidade do território.
A história do grupo está diretamente ligada ao projeto Abelhas e Flores, iniciativa desenvolvida na comunidade com o apoio da Hydro. Segundo uma das fundadoras, Maria do Carmo Freitas, era comum que, após os mutirões, os participantes compartilhassem alimentos e celebrassem o trabalho coletivo com música e dança.

“Terminávamos os encontros dançando. Até que um dia surgiu a ideia: por que não formar um grupo de carimbó, fazer nossas roupas e nos apresentar nos eventos da comunidade?”, relembra.
A proposta ganhou forma e resultou na criação oficial do grupo em 20 de novembro de 2021, durante as celebrações do Dia da Consciência Negra. A primeira apresentação marcou o início de uma trajetória que rapidamente ultrapassou os limites da comunidade.
“O povo gostou e começou a chamar a gente para se apresentar não só aqui, mas também em outros lugares de Barcarena, em Belém e em outros municípios“, conta Maria do Carmo.
Mulheres que mantêm a tradição viva
Desde a fundação, as mulheres ocupam papel central no Arirambas e Botos. Crianças, jovens e adultas participam das apresentações, utilizando o carimbó como instrumento de fortalecimento cultural, valorização da ancestralidade e afirmação da identidade quilombola.
O grupo reúne gerações diferentes em torno de uma manifestação cultural que atravessa séculos na Amazônia e segue sendo transmitida por meio da dança, da música e das histórias compartilhadas entre os moradores.
Posteriormente, os homens também passaram a integrar a iniciativa, recebendo o nome de “Botos” dentro da composição artística do grupo.
“No início éramos apenas mulheres. Depois os botos chegaram para melhorar o embalo das arirambas”, brinca a fundadora.
A homenagem a um pássaro e à ancestralidade
O nome escolhido para o grupo carrega significados importantes para a comunidade.
As arirambas são aves típicas da Amazônia, conhecidas pelas cores vibrantes e pelo canto característico. Segundo Maria do Carmo, a escolha também representa uma homenagem a uma espécie que já foi abundante na região, mas que hoje é vista com menos frequência.
“Era muito fácil encontrar esse pássaro nas margens dos rios e igarapés. Hoje quase não vemos mais”, explica.
O nome também guarda uma conexão espiritual com a história do quilombo. Maria do Carmo lembra que sua mãe atuava como curandeira e realizava trabalhos de pajelança. Entre os caruanas que se manifestavam nos rituais estava justamente a Ariramba.
“Foi uma forma de homenagear esse pássaro e também essa memória que faz parte da nossa história”, afirma.
Dançando o território
Mais do que uma apresentação artística, as coreografias do grupo retratam o modo de vida das famílias quilombolas. Cada apresentação se transforma em uma narrativa dançada sobre o cotidiano e a relação da comunidade com a natureza.
Com saias coloridas, músicas tradicionais e passos inspirados nos voos das arirambas, o grupo mantém viva uma herança cultural que continua sendo transmitida entre gerações.
E, ao som dos tambores, as Arirambas e Botos seguem cumprindo sua missão: mostrar que a cultura quilombola permanece viva, pulsante e em movimento em Barcarena.

































